Relatos de Doula

Nasceu... e agora?

Você planejou tudo o que era possível para que seu parto saísse do jeito que sempre sonhou. Mas se esqueceu de um detalhe: o pós-parto

25.09.2018 • Diversos

Érica de Paula*

Você passou 10 meses (sim, a gestação dura mais frequentemente 10 meses do que 9) sonhando com este momento: o nascimento do seu bebê!

Se você quer um parto normal e já entendeu que o sistema obstétrico brasileiro te induz a fazer uma cesariana em 90% das vezes, e que não adianta apenas confiar no GO fofinho, então provavelmente você estudou tudo sobre indicações verdadeiras de cesárea. Sabe na ponta da língua discursar sobre palavras que nunca haviam te preocupado antes, como “bolsa rota”, “braxton hicks”, “tampão mucoso”, “mecônio”, “frequência cardíaca fetal”, “pródromos” e tantas outras!

Você também sabe tudo sobre fisiologia do parto (fase latente, fase ativa, fase de transição, período expulsivo, dequitação da placenta). Conhece os protocolos hospitalares e já elaborou um plano de parto detalhado para sua equipe! 

Além disso, você já se pegou pensando mil vezes na dor do parto e em quanto tempo esse negócio vai durar. “Será que vou dar conta?” “E se precisar de analgesia?” “E se tiverem que induzir?” Você já escolheu sua doula, visitou os hospitais, assistiu a O Renascimento do Parto (gente, tem na Netflix agora), leu O Parto Ativo e talvez tenha até se preparado para o dia “P” com exercícios de ioga ou fisioterapia pélvica.

Ou seja: você planejou tudo o que era possível para que seu parto saísse do jeito que sempre sonhou. No resto do tempo, pesquisou sobre enxoval e acertou os últimos detalhes do quartinho do bebê (às vezes, até mesmo da reforma da casa! Gestante adora inventar obra que não vai acabar a tempo do nascimento!). 

Algumas amigas suas ou matérias da internet até mencionaram que a amamentação às vezes é difícil, que às vezes dói. Mas você está confiante que isso não vai acontecer, que a natureza vai dar conta do recado e que, ante qualquer dificuldade, bastará pedir ajuda especializada ou correr atrás de informação, certo?

Errado! Esse é o roteiro de grande parte das mães de primeira viagem que eu conheço. Tudo muito maravilhoso, exceto por um ponto: não se esqueçam do pós-parto!!!

Se tem uma tecla que eu sempre bato com as gestantes que me contratam como doula é: “Ok, você chegou até aqui, o que significa que você provavelmente está (ou estará em breve) muito bem informada sobre parto, humanização do nascimento, etc! Leia tudo o que quiser sobre essa etapa, mas, após fazer as escolhas que você considera corretas, passe para a próxima fase: prepare-se para o pós-parto!”

Afinal, se você tiver uma boa equipe que te dê apoio (e não te atrapalhe), o parto vai durar algumas horas e a natureza provavelmente vai dar conta do recado (com algumas exceções).

Já o pós-parto e tudo que o envolve (amamentação/desmame, cuidados com o bebê, introdução alimentar, teoria de exterogestação, confusão de bicos, métodos de criação, educação e disciplina, desenvolvimento, rotina e sono infantil, escolarização) vai durar MUITOS ANOS e cada um desses temas vai te exigir tanto estudo quanto o parto, se quiser fazer escolhas das quais não vai se arrepender depois!

Se durante a gestação já existe tanta divergência sobre o que fazer, você não imagina a quantidade de decisões que terá que tomar após o bebê nascer. Aliás, se você está sofrendo ou sofreu para encontrar um obstetra legal, se prepare para a saga de achar um pediatra que tenha uma abordagem com a qual você se identifique. 

E acredite: não conte que no auge do puerpério e das noites sem dormir você vai encontrar tempo e disposição para ir atrás de boas referências sobre cada um desses assuntos que te atormentarem (é preciso tempo para saber filtrar as informações e desvendar os mitos)!! Se seu bebê está chorando, seu peito está machucado e a família está pressionando para você dar uma mamadeira ou chupeta, pode apostar que você sentirá falta da informação adquirida durante a gestação para quando esse tipo de situação chegasse!!

Se o bebê não dorme no berço e você se sente culpada por estar com ele no seu quarto, ou está ouvindo que ele não deveria ficar tanto tempo no colo pois ficará “manhoso” e “mal acostumado”, você se arrependerá de não ter se munido de argumentos para responder os palpiteiros que aparecerem! E por aí vai...

Por isso, fica minha dica: informe-se sobre parto, sim (num país como o Brasil, isso é fundamental)! Mas não se esqueça do que vem depois! Isso, sim, será o maior desafio de sua vida! 

PS – Dedique menos tempo para o enxoval e mais para o que realmente importa! Boa parte das coisas que você comprar talvez nem seja utilizada. Você vai perceber que tudo o que o recém-nascido realmente precisava era de pais amorosos e disponíveis, leite do peito em livre demanda, muito colo, um bom pediatra, fraldas e paninhos de boca (aí sim: compre pelo menos o dobro do que recomendam)!

*Érica de Paula é psicóloga, doula e educadora perinatal. É também coautora do documentário O Renascimento do Parto – 1

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