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O que é depressão pós-parto?

Ela costuma pegar a todos de surpresa e acomete cerca de 10% das mães nos primeiros dias depois do nascimento do bebê

29.10.2018 • Equipe Canguru

Dr. Neury José Botega, psiquiatra*

Uma menina, com 51 cm e 3.450 gramas, nasceu com traços tão delicados em um rosto tão tranquilo, que era impossível não ficar magnetizado por aquela feição de paz e frescor de vida. Todos estavam radiantes: primeira sobrinha, primeira neta!

Com a mãe desse bebê, no entanto, as coisas não estavam bem. Após três semanas do parto, Clara passou a se sentir estranhamente triste, desanimada, distante do mundo e das pessoas. O marido queria saber por que estava daquele jeito, ela não sabia explicar. Sua reação, à época, contrastava com a alegria inicial, ao saber que estava grávida.

Agora Clara tinha uma sensação de apreensão constante, medos diversos, entre os quais o de que não saberia como cuidar de sua filha. Começou a pensar que teria sido melhor o bebê ter morrido, ideia que a deixava mais angustiada e desesperada. Não conseguia fitar sua filhinha, não encontrava forças para amamentá-la ou cuidar dela.
 
Para se aproximar da bebê, Clara tinha que morder fortemente os lábios, a ponto de feri-los e causar sangramento. Sua mãe logo percebeu a gravidade da situação e transferiu-se com o marido para a casa da filha, dando-lhe todo apoio. Um dia, em pânico, Clara enviou, pelo celular, uma mensagem para seu psiquiatra: “Eu não quero que a minha filhinha morra, ela não tem culpa de nada...” 

Depressão pós-parto 

 
depressão pós-parto, ou depressão puerperal, costuma pegar a todos de surpresa. A paciente e os familiares ficam aturdidos e angustiados com um quadro psiquiátrico surgido em um momento tão aguardado e especial, em que deveria predominar a alegria. É um anticlímax.

A gravidez e a maternidade implicam variações hormonais, mudanças na inserção social, na organização familiar, na autoimagem e na identidade da mulher. A combinação desses fatores torna mais frequente o surgimento de sintomas psiquiátricos nos primeiros 30 dias após o parto. 
 
Nesses dias, é comum algum grau de desânimo e cansaço, acompanhado de instabilidade emocional, irritabilidade e tensão. Esse quadro é chamado de disforia do pós-parto. 
 
Os sintomas são passageiros. Em geral diminuem a partir do décimo dia e não chegam a comprometer o desempenho nas tarefas rotineiras, nem a relação da mãe com o recém-nascido. Já a depressão pós-parto é um quadro clínico mais grave, que acomete aproximadamente 10% das mães. 
 
O conjunto de sintomas é semelhante aos quadros de depressão que ocorrem em outras fases do ciclo reprodutivo. Pelas próprias circunstâncias do período puerperal, aparecem com muita força os sentimentos de incapacidade e as ideias de inadequação para a maternidade, acompanhadas de arrependimento, culpa, vergonha e de temores em relação ao futuro do bebê.

Tristeza e depressão 

 
A depressão pós-parto é diferente de tristeza. Depressão é uma doença. Ela chega como a nuvem que antecede a tempestade amedrontadora, impõe à vida um peso cinzento, impõe ao ser uma imobilidade de pedra. A depressão paralisa. 
 
Por isso, é fundamental distinguir entre estar entristecida por causa de uma situação de vida e estar sofrendo de uma depressão clínica – mais persistente e dolorosa, estranha ao ser. 

Se esse for o seu caso, procure a ajuda de um profissional. Você pode pedir a um amigo ou familiar que te acompanhe até a consulta, se preferir. Expresse o que está sentindo. Isso vai ajudá-la a ficar bem! 
 
* O Dr. Neury Botega é psiquiatra, professor titular da Unicamp e diretor da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (ABEPS). É autor dos livros Crise suicida: avaliação e manejo (Artmed, 2015) e A tristeza transforma, a depressão paralisa (Benvirá, 2018). Email: botega@fcm.unicamp.br

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